Dr José Gomes da Silva na comemoração pelo centenário do Educandário Gonçalves de Araújo em 2000

Homenagem ao saudoso Dr. José Gomes da Silva

Provedor da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária durante várias décadas, o Dr. José Gomes da Silva, muito jovem ainda, imigrou para o Brasil. Este bravo lusitano atuou em Empresa atacadista na Rua do Acre. Cedo granjeou muita estima e consideração pela sua competência e amor ao trabalho. Tornou-se logo grande conhecedor do mercado, adquirindo a confiança dos clientes ao oferecer sempre artigos de boa qualidade com preço justo e aplicar o ditado “o negócio só é bom quando é bom para as duas partes”. Assim, chegou a sócio de empresa. Venceu a tuberculose de que fora acometido, doença que à época grassava no Rio de Janeiro – não havia antibióticos. Estudou e graduou-se em Direito. A experiência acumulada e o conhecimento adquirido foram de grande valia para enfrentar desafios e superar dificuldades. Sua capacidade de discernir, posta em prova em muitas ocasiões, permitia-lhe decidir em segurança. Destarte foi uma bênção de Deus poder a Irmandade usufruir de sua inteligência, firmeza de caráter e de uma honestidade exemplar. Responsável pelos destinos da Irmandade, já aposentado, dedicou-lhe em tempo integral toda a sua vida, sem auferir, sequer, da mais comezinha vantagem pessoal. Solteiro, tinha grande afeição por suas irmãs, notadamente por sua D. Áurea – irmã, ela também, da Candelária.

Seu amor pelo Educandário Gonçalves de Araújo revelou-se bem cedo, antes mesmo de ser admitido à Irmandade. Com efeito, ainda jovem, lá pelos idos da década de cinquenta, ali comparecia aos domingos e feriados para, dedilhando sua guitarra portuguesa ou bandolim, entoar músicas lusitanas ou brasileiras e, assim, alegrar os alunos internos e também seus pais.

Em reconhecimento pelo seu trabalho extraordinário, foi aquinhoado com inúmeras condecorações e mais de 11 medalhas, das quais destacamos: Medalha de Mérito do Real Gabinete Português (fundado em 14 de maio de 1837) e Membro honorário da Academia Luso-Brasileira de Letras.

Tive a oportunidade de conhecê-lo, já lá vão mais de cinquenta anos, em uma reunião de Irmandades, em que fui escolhido para secretariar a sessão, na qual se tinha dado a liberdade de manifestação a todos aqueles que pediram a palavra. Tratava-se de um grupo heterogêneo de pessoas com formações distintas, o que resultou numa grande confusão. Cabendo-me a tarefa de elaborar uma ata daquilo que se passara e de suas conclusões, como sempre faço, apelei, no meu íntimo, para o Espírito Santo, e as luzes não faltaram e consegui compor a ata. Lida e aprovada a ata, o Dr. Gomes, impressionado, fez o seu elogio, o que me envaideceu, já que partira de uma pessoa respeitável, e que não se cansava de repeti-lo. A convivência só fez crescer minha admiração por seu trabalho.

O carinho que dedicava ao Educandário Gonçalves de Araújo, que tem acolhido gerações de crianças carentes, dando-lhes instrução, alimentação de primeira qualidade e, porque não destacar, orientação aos pais. Até nos momentos finais de sua vida preocupava-se pelo destino desta obra, orgulho de nossa Irmandade e exemplo que deveria ser imitado em todo o país, para, de verdade, contribuir para que seja resolvido o único problema brasileiro, o da Educação. Uma vez solucionado este, deixarão de existir o da saúde, o da violência, o da segurança. A Educação é o melhor caminho para a distribuição de renda e, assim, alcançar a justiça social. Dessa ocasião em diante, passando em companhia do Dr. Francisco Massa, então Provedor da Irmandade do Outeiro da Glória, outra figura que dedicava sua inteligência, não só, a unir as Irmandades, mas também, a transmitir a sua experiência aos provedores novatos ou neófitos.

Durante algum tempo, o Dr. José Gomes, o Dr. Francisco Massa, o Desembargador Dr. Joaquim Alves de Brito e eu nos reuníamos numa sala do edifício José Alfredo Simões, mensalmente, para planejar as futuras reuniões como também orientar as Irmandades no sentido de atender ao Plano Pastoral da Arquidiocese e respeitar o Calendário e obedecer aos ritos litúrgicos, incluindo durante as missas as músicas sugeridas no folheto A Missa. Posteriormente, com o falecimento do Dr. Joaquim, continuamos a nos reunir os três. Deste contacto, nasceu uma profunda amizade de confiança mútua, que se consolidou até a sua morte.

Em momentos de tomada de decisões mais graves, chamava o Dr. Antonio Gomes da Costa, que fora Diretor de Banco famoso, e a mim para trocarmos ideias. Dou testemunho de que, além de suas qualidades de grande caráter, agia sempre com muita prudência e temperança. Homem fino, era enérgico com seus auxiliares, porém justo e de bom coração. Sabia valorizá-los. Apreciava muito o Dr. Ito de Albuquerque, arquiteto que fora meu colega no ginásio e no científico, no Colégio Pedro II, e que sempre me consultava nos momentos em que precisava da opinião de um engenheiro de estruturas. Dei inteira liberdade ao meu amigo Dr. Gomes para usar e abusar de meus préstimos, acudindo sempre ao seu chamado.

Para dar testemunho de sua integridade moral, merecem citação alguns episódios. Em determinado período eleitoral, configurava-se uma oportunidade para ser inteiramente financiada a recuperação da fachada da Igreja. Poder-se-ia aceitar até a ideia de manter junto à placa do engenheiro responsável, o nome do Banco financiador. Por outro lado, era inaceitável o complemento da proposta que implicaria algo que fugia inteiramente aos seus princípios de caráter e integridade, inda que pudesse ser admitida por autoridade eclesiástica.

De outra feita, certa empresa, proprietária de um edifício na Av. Rio Branco, apresentou um anteprojeto de construção de um espigão na Av. Rio Branco. A condição sine qua non para tornar real esse desideratum seria incorporar imóveis pertencentes à Irmandade nas Ruas da Alfândega e Miguel Couto: proposta inaceitável para os interesses da Irmandade. Contudo, novamente, prevaleceram o caráter e a integridade do nosso homenageado de hoje.

Ultimamente, por ocasião do início da obra do Mergulhão, não foram poucas as reuniões que fizemos com os encarregados do projeto. Para nossa surpresa, acudiam ao nosso chamado pessoas que confessavam não estar em condições de discuti-los, mesmo porque não havia projeto. Da obra só existiam “folders” que consignavam uma mera intenção, uma ideia. O IPHAN apresentou em três alentados álbuns de fotografia o resultado de uma perícia ad perpetuam rei memoriam. No entanto, nele se lê que a infraestrutura da Igreja não fora objeto de análise. Ali estava o fulcro da questão, pois a Igreja tem suas fundações com base em estacas de madeira. Todos sabem que as estacas de madeira devem estar sempre mergulhadas em água, condição sine qua non para ser preservada, ou melhor, estar livre de agentes que podem levar ao seu apodrecimento.

Finalmente, de todas estas reuniões existem atas. Somente numa reunião final, na presença de 17 pessoas, sentimos certa dose de confiança, embora nem tudo que lá está prometido fosse cumprido pela Prefeitura. Não fora, porém, a atitude enérgica de nosso provedor, sempre agindo com muita discrição, não se pode imaginar o que poderia ter acontecido com a Igreja da Candelária e, como consequência, também com a Igreja de São José e outras edificações. Observa-se que tudo isto foi feito sem alarde e sem necessidade de apelar para a imprensa escrita, falada e televisionada.

Até no seu leito de morte não se esqueceu de recomendar, a todos nós irmãos, trabalhar cada vez mais em prol do Educandário Gonçalves de Araújo que tanto amou.

Sua grande falta, assim como de sua liderança, estamos todos a sentir. Porém, se a saudade fica, resta-nos a alegre esperança de que Deus há de lhe dar a graça para chegar à vida eterna, que fez por merecer. Amém.

 

Texto: Professor Adolpho Polillo

Conserto Agosto 2018 - 532pintura-mural-estencil-restauracao-historia-candelaria